Peguei minha querida mãe e rumamos para a igreja. Preguei duas vezes. Nos cultos da manhã sempre prego o mesmo sermão. No primeiro culto de hoje tive quase que todas as minhas forças exauridas. Mais uma vez fui passional demais. Será que dá para pregar o evangelho sem ser passional? Cheguei para o segundo culto muito cansado física , mental e emocionalmente. O calor estava insuportável apesar do ar-condicionado. Mais uma vez, contudo, minha amada igreja soube expressar seu amor pela palavra, permanecendo atenta e tratando com misericórdia o pregador exausto e encharcado de suor.
Sem ter tempo para almoçar parti para o Maracanã a fim de fazermos nosso segundo protesto público contra a violência no Rio de Janeiro. Parte do grupo foi para a torcida do Flamengo, e parte para a torcida do Vasco. Quanto desgaste. Um calor terrível também. As músicas entoadas, as mais depravadas e sem sentido. Homens se comportando como loucos. Quanta gente despercebida do fato de que toda aquela energia poderia ser gasta para o bem. Parte da solução dos problemas da cidade está neste povo que não tem consciência da sua importância para a história do seu país e cidade.
Olho para o banco de reservas do Vasco e vejo o Romário. Por que ele está ali? Entre os que estavam em campo ninguém jogou mais bola do que ele. O famoso jogador, contudo, não é mais o mesmo. O desgaste do tempo ao qual nossa raça está submetida o impede de usar sua antiga força e habilidade. Penso: "Será que as pessoas não vêem que aí está um exemplar da nossa condição? É isto que somos: fracos, sujeitos à velhice e morte. Nossa felicidade não pode ser resumida a fama conquistada. Quantos jogadores vi passar por ali. Onde se encontram? Curvados pelo que o tempo fez com seus corpos". Sendo assim, concluo: "O único bem que pode nos satisfazer é um que seja imutável e que não temamos perder. Onde encontrá-lo?" Mais uma vez vejo que o trabalho de pregação do evangelho corre nas minhas veias. Tudo o que penso é que as causas políticas, por mais importantes que sejam, de uma certa forma, são absolutamente periféricas. Depois de termos dado um jeito em tudo, ainda continuaremos a carecer de uma esperança maior. Há em todos nós (consciente ou inconscientemente) um anseio que nenhum partido, nem projeto político e nem sucesso algum no campo social podem satisfazer.
Levamos vários cartazes: "Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus"; “Com leis ruins e funcionários bons ainda é possível governar. Mas com funcionários ruins as melhores leis não servem para nada”; “É melhor prevenir os crimes do que puni-los”; “Para que o mal triunfe, é necessário apenas que os homens de bem permaneçam inativos”. Um deles, infelizmente, não pôde ser mostrado. Andava pelo corrredor principal que dá acesso a arquibancada, quando um oficial da PM pediu para que eu parasse: "Vem cá, o que é que você está levando? " Respondi: "São cartazes pedindo paz para nossa cidade". "Deixe-me ver os cartazes", pediu-me. Foi então que abri um que estava escrito assim: "Quando alguém diz, referindo-se aos negócios do Estado: que me importa? Pode-se ter certeza de que o Estado está perdido". "O senhor concorda?", indaguei. "Não, não concordo não". "Mas, esta frase foi proferida por um pensador francês..." Sem que eu pudesse prosseguir: "Então vai apresentar na França". "O senhor está dizendo que nao é importante uma pessoa se preocupar com seu país, sua cidade?" "Aqui não é lugar para esse tipo de coisa. Não quero que você coloque esta faixa".
Veio-me logo a mente tudo o que a Bíblia fala sobre o respeito que é devido as autoridades constituídas por Deus. Tratei de obedecê-lo prontamente. Mas, confesso que fiquei aborrecido. Porque a famosa declaração de Rousseau (apesar de nascido em Genebra, considerava-se francês por força da sua ascendência familiar) é tudo o que o povo brasileiro está precisando compreender. Justamente por não nos importarmos com o que o governo faz é que nos encontramos neste estado de barbárie, corrupção e desrespeito aos direitos humanos. Pensei no período da ditadura. No horror que é ter a liberdade de opinião cerceada. Meditei sobre a bênção que é viver numa democracia plena.
O jogo termina. Só horror do lado de fora. Um helicóptero dando vôos rasantes a fim de controlar a turba. Um senhor caído no chão com a camisa do Flamengo sendo socorrido e levado para uma ambulância. Ao seu lado alguém que me pareceu torcedor do time adversário e que provavelmente havia feito algum mal contra aquela pobre vida. Mais adiante a polícia montada, cercando um grupo pertencente a uma facção de torcida. Pessoas correndo, querendo agredir os integrantes da torcida considerada inimiga. Tiros para o alto. Procuro jogar meu carro para o lado para não ser atingido por uma bala perdida.
Chego em casa à noite. Faminto por não ter tido tempo para almoçar. Trato de fazer um lanche com a família. Enquanto como alguma coisa assisto à televisão. Está passando uma exibição da escola de samba campeã do carnaval do Rio de Janeiro. A letra é exposta na tela. Não se diz coisa com coisa. Tudo é triste, monótono, sem graça e sem poesia. Nada edifica.
Ficor a pensar: "meu Deus, organizar a sociedade é como organizar um hospício. Que esperança podemos ter? Como libertar estas pessoas de suas paixões e do vazio de suas vidas? Como levá-las a Cristo? Como fazer com que o governo se sinta pressionado a agir em favor dessa gente?"
Após o lanche subi para o meu escritório. Estou ouvindo Bach, escrevendo para o blog, com as crianças sossegadas e a amada esposa feliz aguardando a exibição da entrega do Oscar. Até os cachorros parecem estar em paz. Grato a Deus por ter uma família, viver numa casa confortável e exercer meu minístério em circunstâncias maravilhosas de trabalho. Feliz por servir ao Senhor Jesus, podendo conciliar a pregação expositiva da Palavra de Deus com o envolvimento com as questões sociais da minha cidade. Ninguém poderá nos chamar de escapistas ou alienados. Que alegria ter podido ver hoje aqueles jovens da igreja comigo no Maracanã depois de terem participado do culto de adoração a Deus.
Triste, contudo, por perceber a condição daquelas pessoas que puder ver no estádio de futebol. Lutando para não me deixar abater pelo ceticismo e apatia contagiantes de muitos e sonhando com a vitória da vida sobre a morte na minha cidade. Até breve.


Um comentário:
Caro rev. Antonio Carlos,
Tenho lido alguns artigos que tem escritos e que muito me sensibilizam pela clareza e profundidade que são expostos. Neste texto em especial, vislumbro uma capacidade imensa de percepção da necessidade do povo e quanto o irmão se preocupa e compadece dos que estão sofrendo "sofrendo como ovelhas desgarradas que não tem pastor". Que não tem quem as conduza. Quem as ensine que esta cidade tem jeito, que este país tem jeito! Qual a fórmula mágica? Jesus Cristo! Assim como o irmão, tenho refletido muito sobre a miséria física, econômica, emocional e espiritual do povo e infelizmente, noto que as igrejas, parecem não se importar muito com isto. Espero confiado em Deus que seus artigos venham a colaborar para que se levante neste país, homens e mulheres, dependentes de Deus, que venham a se sentir compungidos pelo Espírito Santo a engrossarem as fileiras da liberdade. Que a Palavra de Deus genuína venha a ser propagada por este país, trazendo um grande renovo a esta nação. Fico a pensar o quão extenuante é para o irmão perceber que há tanto a fazer e quão pequeninos somos diante de tantos obstáculos. Porém, querido, entendo que a força motriz que o move e capacita-o para esta tarefa herculana, é o nosso Senhor Jesus Cristo. Que a graça, a misericórdia e o poder de Deus, esteja sempre com o amado irmão, consolando e confortando em seus momentos de aflição e angústia. Que o Senhor Jesus através do Espirito Santo o ilumine cada vez mais lhe dando esta capacidade de tirar pérolas preciosas dos textos expostos pelo irmão, mexendo com o nosso intelecto, com nossa fé, com aquilo que estamos fazendo e o que deixamos de fazer. Que haja despertamento do povo de Deus para a necessidade premente de voltar-se mais para a Bíblia e seguir o exemplo de Jesus quando este olhando para a multidão compadeceu-se dela.
Deus o abençoe abundantemente.
rev. Cláudio Gonçalves
IPB Manilha
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