domingo, 18 de fevereiro de 2007

CARTAS DE IWO JIMA


Ontem à noite fui ver o excelente Cartas de Iwo Jima do ator e cineasta americano Clint Eastwood. O filme trata de mostrar todo o drama da guerra pela ótica daquele que é visto como inimigo. Nisto o filme cumpre um excelente papel, pois tal é a quantidade de obras de cinema que retratam os adversários da América como meros coadjuvantes boçais e insensíveis, que somos conduzidos a pensar que quem está do outro lado não tem alma. Não é fato que fomos levados a crer que alemães, vietnamitas, japoneses, russos e mais recentemente árabes, não sentem as coisas como o americano sente? Como é importante sabermos que a dor que sentimos é experimentada pelos de nossa raça também. Isto impõe a você e a mim a obrigação de sairmos em seu socorro.Eu chamaria isto de as obrigações do mútuo sentir. Eu não posso chamar uma coisa de horror para mim, e dizer que ela não é um horror também para meu semelhante.

Um outro papel importante da obra de Eastwood é mostrar toda a tolice de circunscrevermos a ética a lealdade patriótica. As guerras em geral são motivadas pelo que de mais vil o ser humano pode almejar. Insensata é a atitude daquele que não compreende que "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" significa dizer que há coisas que apesar de serem do interesse do estado não são do interesse de Deus. Devo dar a César o que é de César, mas desde que César não peça de mim o que é devido a Deus. Que não deixemos de cumprir nossas obrigações para com o estado, mas que não permitamos que o estado nos obrigue a fazer o que Deus proíbe, ou nos impeça de fazer o que Deus exige.

Penso que não podemos, contudo, fugir do assunto bastante espinhoso relacionado ao conceito de guerra justa. Julgo que a paz a qualquer preço não é ensinado pelo Cristianismo. Cristo não é Gandhi e o Cristianismo não é sinônimo de pacifismo. O compromisso com as Escrituras e a vida tal como a vida é me impelem a dizer que em muitas ocasiões, valores tais como, o direito, a paz, a justiça, a liberdade e a própria vida, somente são preservados através da luta. Imagine você , se diante do avanço do Nazismo as nações democráticas deixassem de lutar em nome da paz?

Por que estou tocando nesta questão? Porque muitos para manterem a aura de amantes da paz agem de modo irresponsável em relação ao seu semelhante. Hoje criticamos os Estados Unidos por interferirem no Iraque. Estou pronto a admitir que os valores da democracia não podem ser impostos. Há todo um tempo de maturação necessário para que pessoas abracem de coração o que é bom e desconhecem. Somente assim, lá na frente, na hora da mais alta prova, resistirão até o fim a qualquer ameaça a este mesmo valor, visto agora como essencial. Mas, o que falar de uma nação como a nossa, supostamente amante da paz e respeitadora do direito de livre autodeterminação dos povos, ter uma presença pífia nos negócios da América Latina e ao mesmo tempo ser capaz de conviver em nome do amor com a prática indiscriminada do crime em seu próprio território? Não é fato que em nosso país praticamos o exato oposto do que costuma-se dizer que países desenvolvidos fazem? Em nome do amor não criamos uma cultura condescendente com o crime?

Sugiro que saibamos aproveitar o que há de bom no filme. A importância do que é certo, a relativização de algumas das intenções do estado, a universalidade das experiências emocionais dos homens, o valor da vida, a busca da compreensão mútua, entre tantas outras verdades mais. Não deixemos, no entanto, que a mensagem do filme obstrua a prática ativa do bem. A decisão de fazermos o que é bom pode nos levar a prática do que é aparentemente ruim a fim de que evitemos um mal maior. Fico feliz de perceber que toda a luta pelos valores da democracia nos Estados Unidos conduziu aquela nação a permitir um trabalho como o do Clint Eastwood. Um americano pôde realizar uma obra cinematográfica em seu país que retrata a humanidade de um povo destruído pela guerra. Guerra que foi incitada por este mesmo povo. Foi no ataque a Pearl Harbor, antes de fazer uma declaração formal de guerra aos Estados Unidos, que o Japão precipitou o povo americano num combate que custou a este milhares de vidas.

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