quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

BABEL


Pude assistir hoje no cinema um dos trabalhos concorrentes ao Oscar de melhor filme, o comovente Babel. Dirigido por Alejandro Gonzáles Iñárritu e escrito por Guillermo Arriaga, o filme procura basicamente retratar os choques culturais que ocorrem no mundo inteiro dentro do contexto da chamada globalização. O mundo está menor. Estamos em contato uns com os outros numa escala jamais vista. O que ocorre num país remoto pode ter repercussão num extremo oposto da Terra. Somos forçados a ter que negociar, trabalhar e conviver com pessoas de civilizações com costumes antagônicos aos nossos. Não há como pedir para o ônibus parar e saltar em um outro planeta. Em suma, o mundo virou uma grande Babel. Confusão de línguas, valores, culturas, sentimentos e visão de mundo.


Talvez os confrontos entre culturas diferentes, traço característico do mundo atual, não represente aquilo para o que o filme nos chame mais a atenção. Ele fala do colapso da experiência familiar, do problema da solidão, das misérias inatas que muitas vezes a vida nos impõe, dos conflitos com a auto-estima, da escalada fantástica do poder tecnológico num ambiente de impessoalidade, do rigor moral que esmaga, da indiferença que conduz o ser humano a baratear sua vida e daquilo que acontece que se configura como um absurdo do acaso cego.

Confesso que saí do filme deprimido. Mal consegui conversar com minha esposa que estava comigo, e, que de um modo gentil deixou-me organizar no meu coração tudo aquilo que o filme tangera. Pensei num mundo de temas. O primeiro que me veio à mente foi o colapso experimentado por uma sociedade que tentou chegar aos céus sem o seu Criador. Depois de tudo o que já experimentamos, vivendo de infelicidade em infelicidade, ansiosos por obter as coisas, temerosos por perdê-las, caminhando inexoravelmente para a morte, como podemos viver sem perguntar qual o sentido da história e da vida? Cogitar acerca de tudo, menos sobre a possibilidade de estarmos desorientados por que falta-nos a presença daquele sem cuja relação de amizade e amor tudo é horrivelmente sem sentido e frio.

Pensei um bocado na igreja. Como poderíamos funcionar como uma alternativa fascinante para tudo isto. Milhares poderiam estar encontrando reais relacionamentos em amor dentro das comunidades cristãs espalhadas pela mundo inteiro. Nunca foi tão urgente darmos um testemunho sociológico da realidade da nossa fé. Pessoas deveriam olhar para nossos relacionamentos e dizerem o que se costumava dizer sobre os cristãos do primeiro século: “vejam como se amam, parecem irmãos”. Neste sentido, como se configuram como malignas as quebras de comunhão nas nossas igrejas e a preocupação com números em detrimento da qualidade dos relacionamentos.

Um filme com um conteúdo tão sociológico, acabou trazendo minha mente de volta para coisas que sempre acreditei e que espero jamais vê-las sair da minha memória. Deixe-me lhe explicar. Por causa de toda violência no Rio de Janeiro e violação dos direitos humanos na nossa nação, tenho me interessado muito pela vida em sociedade. Nesses últimos dias deixei temporariamente de lado a teologia para me dedicar a leitura dos clássicos sobre direito constitucional e política. O que salta aos olhos em Babel é que enfrentamos problemas na sociedade para os quais na há solução política. Por melhores que sejam as leis e os governos, nenhuma iniciativa dessa natureza é capaz de ensinar o homem a amar. Devemos lutar por mudanças estruturais. Clamar por uma ação governamental justa. Mas, carecemos de uma força que aja dentro de nós e nos ensine a nos esquecermos de nós mesmos e nos concentrarmos no próximo.

Espero que você veja Babel. Certamente lhe ajudará a entender algumas das principais tensões modernas. E, oro para que você deixe o cinema entendendo que nossos problemas sociais são mais profundos. Requerem ação política certamente. O máximo que o Estado pode fazer, no entanto, é impor mediante as leis que cria um comportamento que embora seja essencial para a manutenção da ordem (o que é fundamental porque somos malvados), é incapaz de transformar a alma. Ele não gera espontaneidade. Para tal, só a graça de Deus que é revelada pelo evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Somente nele recebemos o Espírito que quebra a maldição de Babel e nos faz falar na língua dos outros: "E todos falavam em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem".

Nenhum comentário: